Clonando o
comportamento eletrônico com átomos
Destaque em Física, semana de 12 de março de 2015
As
propriedades óticas (opaco/transparente/cor, espectro de absorção), de
transporte de corrente (condutor, supercondutor ou isolante), e estruturais
(arranjos atômicos, dureza) dos materiais cristalinos são definidas quase que
inteiramente pelo comportamento dos seus elétrons ligados ao potencial da
estrutura periódica dos íons do sólido.
A
habilidade de aprisionar átomos em redes óticas, cujo potencial cristalino é
gerado por lasers contra-propagantes em ambiente com temperaturas ultra baixas
(na faixa de nano Kelvin), permitiu a criação de um novo tipo de sistema, onde
os átomos seguem o comportamento de elétrons em sólidos Esses cristais
artificiais são conhecidos como redes óticas.. Ao contrário do que acontece com
os sistemas eletrônicos na Matéria Condensada, nas redes óticas é possível
controlar praticamente todos os parâmetros envolvidos nas características da
matéria condensada. Em particular As interações interatômicas, controladas
através de um campo magnético, podem se tornar atrativas ou repulsivas. O
potencial químico (número médio de átomos no sistema) é também facilmente
controlável, podendo ser introduzida desordem.
Pesquisas
realizadas por um grupo com participação brasileira e publicadas em duas das
mais prestigiosas revistas científicas em Física, receberam ainda destaque
recente na revista Science.
Os artigos
do grupo, publicados na "Physical Review Letters" e na
"Nature", investigam aspectos do comportamento de átomos ultrafrios,
na expectativa de esclarecer fenômenos nos quais a intensidade das interações
entre as partículas elementares (elétrons ou átomos conforme o caso do cristal
natural ou a rede ótica) é maior que a energia cinética das mesmas. Tais
fenômenos constituem o assunto abordado na chamada física de sistemas
fortemente correlacionados: uma das instâncias mais conhecidas e importantes da
área é a supercondutividade.
Um
problema em aberto neste tema é o mecanismo microscópico responsável pela
supercondutividade de alta temperatura, que se manifesta em materiais que
também exibem uma transição ligada ao ordenamento magnético. O que se observa
ao variar a temperatura é uma transição de uma fase não-magnética (ou
paramegnética) para outra ordenada antiferromagnética. Variações de temperatura
entre outros parâmetros eventualmente levam o sistema ao estado supercondutor.
No
trabalho publicado na "Nature", Thereza Paiva, do Instituto de Física
da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e seus colegas teóricos das
universidades Estadual de San Jose, da Califórnia em Davis, Estadual de Ohio e
Princeton , em colaboração com o grupo experimental de Rice, todos nos Estados
Unidos, investigaram correlações antiferromagnéticas do chamado modelo Hubbard
– uma representação simplificada de férmions (tipicamente elétrons) se movendo
num potencial periódico – usando para isso átomos ultrafrios.
O arranjo
experimental permitiu que se reduzisse a temperaturas a níveis sem precedentes
neste tipo de sistema, atingindo apenas 1.4 vezes a temperatura da transição de
fase antiferromagnética. Este é um passo importante para a compreensão da
supercondutividade. A transição supercondutora possivelmente ocorre a
temperaturas ainda mais baixas, aproximadamente 25% das que foram obtidas,
quando o estado magnético deixa de ser ordenado. Reduzir ainda mais a
temperatura representa no momento um grande desafio teórico e experimental nas
redes óticas. Este objetivo está sendo perseguido internacionalmente, por este
e outros grupos.
Num estudo
paralelo, publicado na "Physical Review Letters", o foco foi para a
caracterização de um isolante de Mott -- um material que, pela teoria de
correlações fracas deveria conduzir eletricidade, mas na realidade comporta-se
como um isolante. Com imageamento in-situ e cálculos teóricos, foi possível
observar localmente a formação deste estado isolante na região central da rede
ótica.
Assessoria
de comunicação da SBF
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