Por Samuel
Gregg
Diretor do Center for Academic Research do Acton Institute
Karl Marx
é o maior filósofo de todos os tempos. Ou ao menos foi o que muitos ouvintes da
rádio BBC recentemente afirmaram quando ao serem perguntados “Qual
maior filósofo de nossos tempos?” indicaram tal personagem. Para a surpresa de
alguns, Marx liderou a pesquisa (27,93% dos entrevistados), batendo – por ampla
margem de diferença – pensadores como Aristóteles (4,52%) e Kant (5,21%).
Marx
escreveu muitas coisas, até mesmo palavras admiráveis sobre o capitalismo, o
qual via como um avanço explícito nos arranjos econômicos anteriores. O resultado da BBC, no entanto, ressalta uma estranha
cegueira nas sociedades ocidentais que persistem na presença de Marx.
De certa
forma, nada disso é novidade. Em 1930, ocidentais intrépidos viajaram para a
União Soviética e retornaram dizendo que tinham visto o futuro. De algum modo,
eles conseguiram não ver o expurgo, a coletivização, e os gulags que acabaram por
aprisionar e matar milhões de pessoas. Dizem, muitas vezes, que o comunismo é
um sistema sem Deus. Isso não é bem verdade. O comunismo foi sem Deus na medida
em que se baseou numa visão atéia do homem. Mesmo assim, o comunismo teve seus
deuses; divindades para as quais todos poderiam ser sacrificados.
Uma
resposta comum é dizer que a filosofia de Marx foi distorcida por Lenin e
Stalin. O próprio Marx, muitas vezes ouvimos, foi um humanista que queria
libertar os povos de seus grilhões. Outros apologistas insistem que podemos
fazer distinções entre o jovem e o velho Marx: o jovem filósofo, mais
humanista, e o grisalho e insensível revolucionário.
Mesmo numa
rápida passada de olhos, os escritos de Marx rapidamente nos revelam a
superficialidade de tais defesas. Uma consistente visão desumanizante aparece
em todo o pensamento de Marx. Para esse autor, o homem é um ser cuja origem é
irrelevante, o futuro é a extinção e o presente é submissão ao controle. Mesmo
que as pessoas vivessem na sociedade comunista de Marx, elas não teriam a
possibilidade de uma existência com significado. Certa vez Marx descreveu a
sociedade comunista como aquela em que seria possível “fazer uma coisa hoje e
outra amanhã”, caçar pela manhã, pescar a tarde, criar gado a noite e criticar
depois do jantar, se me aprouver”.
Isso
parece idílico até percebermos que, da perspectiva marxista, nenhuma dessas
atividades pode ter qualquer valor para os seres humanos. Para os verdadeiros
materialistas, não há diferença qualitativa entre ler e pescar, trabalhar ou
dormir, viver ou morrer. Tudo tem o mesmo valor e, portanto, nenhum valor.
Nesse mundo não há diferença entre o trabalho de Madre Teresa de Calcutá e o de
um guarda do campo de concentração. Eles partilham da mesma parcela de
irrelevância geral de tudo e de todos.
Isso nos
diz que o marxismo não pode estar interessado na justiça ou na liberdade. Ele
insiste no fato de sermos como uma jangada, navegando nas ondas da história. Em
tal mundo, nossas vidas não são importantes e nossas mortes, irrelevantes.
Tentamos salvar somente a satisfação animal que tiramos da vida, antes que o
nada em essência que somos termine na nossa aniquilação final como seres vivos.
Tanto se
pode dizer do humanismo de Marx e um dos
problemas mais sério com a filosofia marxista é a legitimação da criminalidade. Por
“criminoso” não quero dizer simplesmente a pessoa que ocasionalmente
desrespeita a lei. Em vez disso, pretendo descrever toda a situação em que a
pessoa decide estar acima da lei, não estar sujeita à lei e onde a lei age
meramente como outra ferramenta do poder. Pois, se o marxismo estiver
correto e o materialismo for verdadeiro, então a violência sistemática à lei
para alcançar objetivos políticos é aceitável.
Ironicamente,
enquanto milhões de pessoas nos dias de hoje conhecem os impronunciáveis crimes
nazistas, muito poucos, ao contrário, sabem das atrocidades cometidas por
Lenin, Stalin, Fidel Castro, Pol Pot e outros marxistas. É como se houvesse um
acordo silencioso para que esses crimes não sejam mencionados. Essa
ignorância estudada manifesta-se quando observamos bandeiras vermelhas com
foices e martelos estampados em manifestações. Será que as pessoas que
as empunham sabem dos muitos que foram escravizados e mortos pelos regimes
marxistas? Por que a bandeira marxista não é tratada da mesma forma que a
suástica nazista?
É claro
que Marx morreu muitos anos antes de seus seguidores chegarem ao poder. Mas
podemos suspeitar de que Marx teria aplaudido o uso da violência pelos
comunistas. O próprio Marx advogou o enforcamento dos capitalistas nos postes
mais próximos. “Quando chegar a nossa vez”, advertiu a seus oponentes, “não
disfarçaremos o nosso terrorismo”.
Muitas
ações violentas têm sido cometidas em nome de filosofias e religiões, e nisso
incluímos o cristianismo. Mas a diferença é que o cristianismo possui um
critério moral, segundo o qual podemos julgar e condenar tais atividades
cometidas por parte dos cristãos. O marxismo nunca teve nem terá tais padrões,
pois na filosofia marxista não há lugar para o amor de Deus e para o amor ao
próximo. Talvez isso, acima de tudo, torne Marx tão indigno da admiração de
nossos contemporâneos.
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